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Saúde Digital: telessaúde e inteligência

A tecnologia é o meio, não o fim. Conheça as virtudes da Inteligência Artificial em saúde e como podemos transformar Portugal numa verdadeira montra digital nesta área.

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A cada dia, o mundo é mais digital e todos - ou quase todos - trazemos tecnologia no bolso. No universo da saúde, a realidade é a mesma. A colaboração entre humanos e as tecnologias digitais já tem efeitos no nosso dia a dia. O desafio passa agora por mais profissionais de saúde - e utentes também - abraçarem este futuro, que já começou.

O ditado é conhecido: "primeiro estranha-se, depois entranha-se". E o exemplo está justamente em Portugal, como explica Teresa Magalhães, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). "Há uns anos largos, apareceu a telerradiologia, porque tínhamos falta de profissionais que pudessem ler e relatar as imagens radiológicas, e começaram a surgir empresas que faziam isso de uma forma remota. Istb seria impensável quando apareceu e houve muita resistência. Mas continuou e estabeleceu-se", conta. 

A saúde digital marca já presença firme no País e tem um nome amigo da memória: a telessaúde. Para os utentes, estamos a falar em acesso à saúde em qualquer parte. A experiência, aliás, não deve ser estranha a muitos: abrir uma receita médica no telemóvel ou ligar a pedir um diagnóstico a um enfermeiro do outro lado da linha.

Não é demais recordar os dados do Barómetro da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), da ENSP, dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e da tecnológica Glintt: mais de 80% dos hospitais públicos recorrem à telessaúde - em especial, ao telerrastreio e à teleconsulta. Mas há hoje uma nova ferramenta na saúde digital. Essa, sim, um desafio maior à forma como decidimos em saúde. Estamos a falar da Inteligência Artificial (IA).

Primeiro, a elucidação. Basta imaginar a base de dados de um hospital: um amontoado de informação com o histórico clínico de milhares e milhares de doentes. Um sistema de IA seria a solução ideal para processar e encontrar valor nesses dados. A um nível mais profundo, esta tecnologia analítica pode ser usada para detetar padrões normais ou anormais em exames como um TAC ou uma radiografia, impercetíveis a olho humano. É uma autêntica ferramenta de expansão do cérebro humano.

Depois, os resultados. Diagnósticos mais velozes e precisos, mais tempo para os profissionais se focarem nos utentes, melhores cuidados. Saúde, mais saúde. Benefícios como estes foram conseguidos com a solução criada pela Glintt e já adotada pela Organização Mundial da Saúde. "Em parceria com a APAH, lançámos uma ferramenta gratuita com a qual os profissionais de saúde e os gestores das unidades de saúde podem antecipar e definir, de forma estratégica, a alocação de recursos, quer físicos, quer humanos, para melhor responder à COVID-19 em diferentes regiões", explica-nos a administradora executiva da tecnológica Glintt, Filipa Fixe.

A lista de vantagens é longa. Mas a capacidade para expandir o uso destas soluções, por agora, ainda não. É preciso formar os profissionais de amanhã e apoiar nas competências dos que já estão na linha da frente. "Os profissionais de saúde são essenciais para o sucesso destes projetos e não podem estar à margem disto. É altamente prioritário que a formação em saúde digital seja oferecida nos cursos e ao longo da carreira dos profissionais. A partir daí, podemos incentivar os investigadores e as escolas a promover a translação de conhecimento para o terreno e conseguir implementar estes projetos", adianta Teresa Magalhães. Para este efeito, o EIT Health, que integra o Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT), é uma referência - tem um papel preponderante, ao promover e acelerar projetos centrados no campo da inovação em saúde, em Portugal e no resto da Europa.

De mãos dadas com a qualificação profissional deve andar, defendem os especialistas, a confiança no digital. Não estamos a falar, afinal de contas, de uma fatalidade para os profissionais. Filipa Fixe defende que a IA, em particular, vai crescer cada vez mais, mas não vai substituir o trabalho dos profissionais de saúde. Vai ser um complemento para que tomem decisões mais informadas. As alterações nas tarefas dos profissionais vão ser muitas, mas a decisão final caberá sempre ao humano, diz.

A chave está em perceber como podemos realmente tirar partido das tecnologias digitais. É preciso que "as organizações olhem para os seus processos internos e para a forma de os otimizar, garantido que a tecnologia lhes permite desenvolver tarefas de valor acrescentado", explica. Com os modelos de financiamento e de regulamentação adequados, assim como com o envolvimento de todos - do cidadão aos profissionais -, estão criadas as condições para o fim ideal: tornar Portugal numa verdadeira montra digital em Saúde.​